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Atriz Fernanda Montenegro diz que 'quem acredita na fama está perdido'



Domingo, 06 de maio de 2018

Na última semana de 'O Outro Lado do Paríso', a coluna tem a honra de publicar uma entrevista com Fernanda Montenegro, a Mercedes da trama de Walcyr Carrasco. Na entrevista a seguir, a grande dama da TV brasileira fala sobre sua personagem, fama, tecnologia, e revela que, se tivesse o poder de trazer alguém de volta à vida, traria o marido, Fernando Torres: "Foi uma vida encontrada não só nas particularidades, como também numa vocação mítica. Criamos nossos filhos nos palcos e eu acho que só tenho a agradecer, como diz a Mercedes, a Deus".

O que a Dona Mercedes te ensinou?

A Mercedes é um personagem totalmente novo na minha vida de TV. Achei mais do que interessante, achei um desafio e adorei fazer uma velhinha rezadeira porque eu sempre fazia as ricas, as bandidas ou as senhorinhas honestas (risos). Adorei fazer, agradeço por terem me convidado.

Mercedes é muito especial...

Ela tem uma mística que eu acho que tenho. Santo Agostinho diz que se você duvida, você acredita, e eu acho que a Mercedes tem um místico muito amplo, que é do povo brasileiro, da nossa crença popular. Eu tive uma formação no catolicismo e o meu bisavô rezava para se acalmar, sempre dentro dessa estrutura mais católica.

O que a senhora tem a dizer sobre a novela?

Essa novela trouxe cinco atores que estão indo de muleta para 100 anos. Tem a Nathalia Timberg, a Laura Cardoso, o Lima Duarte, eu caminhando para os 90 e o Juca de Oliveira. Tem também os que estão caminhando dos 60 para 70, mas isso ainda é adolescência (risos). Essa novela é corajosa porque colocou personagens importantes e que tiveram espaço nas nossas mãos. O Walcyr Carrasco deu esse espaço para nós que estamos caminhando, saindo dos 90. Isso é absolutamente novo na dramaturgia. Não tem, na história, cinco atores velhos numa novela.

A cena em que a Mercedes fez um pacto com a morte, para não levar o Josafá (Lima Duarte), foi muito emblemática. Se você tivesse o poder de trazer alguém de volta à vida, você traria o senhor Fernando Torres?

Ah, traria! Sem dúvida, traria o Fernando porque foram 60 anos de vida com muita cumplicidade, não só da porta de casa para dentro, mas principalmente na nossa profissão. Na potência que ele tinha, como homem de teatro, é marcante. Enquanto ele viveu, ele foi do teatro, da coxia até o espectador. Quando ele morreu, eu assumi isso durante um tempo, depois a vida me levou para o cinema e para a televisão. Mas se eu tivesse que fazer uma chamada de companhia eterna, seria o Fernando.

A cena do casamento de Mercedes e Josafá lembrou o seu?

Meu casamento foi há muitos anos. Eu conheci o Fernando em 1953. Nós namoramos, eu cheguei a noivar, casei de vestido de noiva protegido e hoje as noivas se casam quase com os seios de fora (risos). Foi uma vida encontrada não só nas particularidades, como também numa vocação mítica. Criamos nossos filhos nos palcos e eu acho que só tenho a agradecer, como diz a Mercedes, a Deus.

Em outubro, no seu aniversário, será lançado seu livro de memórias. Como está sendo voltar ao passado?

Nós já estamos trabalhando nesse livro há quatro anos porque são 63 de vida pública. Ali tem o que sobrou de fotos da vida particular. Eu comecei no rádio com 15 anos. Aos 19, cheguei no palco, mas o palco acabou logo e a televisão já começou. Na época, tinha essa ambição altamente cultural e é tanta coisa, tantos anos. O livro é o que sobrou de fotos e o que eu juntei na vida de documentos importantes, os prêmios todos. Ele será lançado em agosto, na Bienal do Livro de São Paulo. Também estou preparando uma autobiografia para a Companhia das Letras, como se fosse uma longa entrevista da minha vida.

Tem algum momento, da sua vida, que você destaca?

São muitos anos, muitas frentes. Eu seria injusta em destacar um momento porque foi sempre na alegria de estar fazendo a minha vocação, que é desafiadora. No palco, ou você é ou você não é, ninguém vai te salvar.

Você escrevia um diário?

Não. É muito interessante mexer nas memórias. Tem hora que você pensa que o assunto está esgotado, aí depois vem a lembrança de algo que aconteceu. É infindável.

Como é que a senhora enxerga esse momento em que estão querendo desregulamentar a profissão do ator?

A profissão continua, o que se discute é a formação para se chegar a ela. Eu acho que no vale de lágrimas que é a nossa profissão, toda maneira de amor é válida. Eu acho que vale a escola e vale o sindicato.

A senhora acha que o Walcyr Carrasco, nessa novela, está ensinando que não se deve esquecer de quem já fez muito pela arte?

Eu acho que o folhetim, que é a base das novelas, requer um leque de idades porque se fala de uma estrutura da classe média ou aristocrata e etc. Toda novela tem desde a criança até o velhinho. Tem que ter uma geração plena e uma que está começando.

A senhora sempre faz questão de comprar os livros nos lançamentos, pagar pelas peças que vai assistir

Artista tem que comer (risos). Você tem que entender que isso é um trabalho e a gente também paga o pão que come, a casa que mora. O Brasil tem uma coisa horrenda quando se fala de arte, que é achar que o que se pode comprar tem que ser convidado.

Hoje o feminismo está em alta. Como a senhora vê?

Eu acho que a batalha do feminino é importante, somos todos criaturas, independente de sexos. Eu tenho muito isso dentro de mim. Durante séculos, as mulheres não iam para a cena e a partir do momento que as mulheres vieram para a cena, foi um dos maiores ganhos do feminismo. Na cena, ela pode ser melhor que o homem, ele pode ser melhor que ela. O teatro necessita desse choque, da crise, da sexualidade. Em princípio, o espaço da existência teatral não tem sexo. Mas imagina isso nos velhos tempos, em que você não votava, uma viúva não podia chegar na janela sozinha, uma jovem tinha que ser virgem. Isso tudo já foi vencido.

No início da novela, a senhora disse que seria um grande desafio gravar uma novela com produção cinematográfica. Qual é o balanço agora?

É extremamente exaustivo. Essa novela das 21h é praticamente um longa por noite.

A expectativa de vida do brasileiro está crescendo, mas o idoso não se encontra no mercado de trabalho. A senhora acha que o Brasil ainda está engatinhando nisso?

Isso não é de agora. Não sei dizer. Tem coisas que eu não entendo. Para onde vai o dinheiro do imposto de renda?"

Você considera a prisão do Lula uma política?

Tudo na vida é política. Tem uma política engajada. Não vou entrar nessa temática, mas tudo na vida é política.

Alguns atores mais novos ficam nervosos para gravar com a senhora. Como tem sido a troca?

Eu acho que isso representa um reconhecimento a uma sobrevivência dentro de uma profissão que eles estão chegando. Eu sobrevivi e devo ter alguma qualidade a ponto de ainda estar agindo. Quando um jovem vocacionado olha para um ator que sobreviveu, é como no meu tempo, quando eu tinha 15 anos. A Bibi Ferreira me inspirou.

Como a senhora lida com a fama?

Você luta para fazer uma profissão e depois essa profissão te traz prestígio. Esse prestígio pulsa, tem solicitações de toda ordem, você sobrevive com duras penas. Essa glória é estranha. Às vezes, as pessoas pensam que quando você chega nessa glória, tudo vai ser fácil. Mas não é. Todo dia é um recomeço. O lado ruim da fama é a gente acreditar nela. Quem acredita na fama está perdido, vira massa de manobra, tem que estar alerta.

A senhora já se acostumou com as selfies?

No meu celular, eu só sei ligar para algumas pessoas. Não sei usar WhatsApp, nada. Acho que daqui a pouco vou aprender. Mas ainda prefiro ler um livro. Quando eu tenho que decorar, pego meu papel. Não sei como vai ser quando os capítulos não forem mais copiados numa folha. Por outro lado, é a era da ciência e da tecnologia e não vai ter volta. As pessoas que falam comigo, eu digo com alegria, não são invasivas. Só teve uma vez que eu estava no hotel e uma pessoa veio com uma câmera. Geralmente, a aproximação das pessoas é humanizada e eu não fico incomodada, vivo me exibindo. Qualquer tribo indígena tem aparelho de televisão hoje em dia. Tem o negócio da selfie, falam que a filhinha de 3 anos quer tirar, mas eu sei que ela nem sabe quem eu sou (risos). Quando eu posso, tiro. Na maioria das vezes, não tiro selfie.

Como a senhora está mantendo o cabelo branco sem manchar?

Foi aí que eu vi que estava todo branco (risos). A Mercedes me deu isso de felicidade. É um conforto e eu acho que, a não ser que exijam que mude, é esse cabelo que vai ficar. Tem um shampoo de cabelo branco que é violeta. É só pedir na loja de cosméticos que vendem.

O Dia
Foto reprodução O Dia

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