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Polícia Federal prende ex-ministro de Temer, Geddel Vieira Lima, na Bahia


Segundo os investigadores, Geddel estaria agindo para evitar que Eduardo Cunha e o doleiro Lúcio Funaro firmem acordo de delação premiada.

O ex-ministro Geddel Vieira Lima foi preso nesta segunda-feira na Bahia pela Polícia Federal. A prisão ocorreu em caráter preventivo pela Operação Cui Bono, que investiga esquema de fraudes na liberação de créditos da Caixa Econômica Federal. A detenção do ex-chefe da Secretaria de Governo de Michel Temer tem como fundamento informações fornecidas nas delações do doleiro Lúcio Bolonha Funaro, do empresário Joesley Batista e do diretor jurídico do grupo J&F, Francisco de Assis e Silva. De acordo com os investigadores, Geddel estaria agindo para atrapalhar as investigações.


Segundo informações do Ministério Público Federal, Geddel tentava evitar que o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), e o próprio Lúcio Funaro firmassem acordo de colaboração com o MPF. Para isso, o ex-ministro tem atuado no sentido de assegurar que ambos recebam vantagens indevidas, além de “monitorar” o comportamento do doleiro para constrangê-lo a não fechar o acordo.


Na petição apresentada à Justiça, foram citadas mensagens enviadas recentemente por Geddel à esposa de Lúcio Funaro. O doleiro entregou à polícia cópias de diversas telas do aplicativo com as conversas. Nas mensagens, o ex-ministro, identificado pelo codinome “carainho”, sonda a mulher de Funaro sobre a disposição dele para se tornar um colaborador do MPF.

Para os investigadores, os novos elementos deixam claro que Geddel continua agindo para obstruir a apuração dos crimes e ainda reforçam o perfil de alguém que "reitera na prática criminosa". Por isso, eles pediram a prisão "como medida cautelar de proteção da ordem pública e da ordem econômica contra novos crimes em série que possam ser executados pelo investigado". O ex-ministro deve ser transferido para a Superintendência Regional da PF em Brasília na terça-feira.

Em entrevista à revista Época, em junho, Joesley Batista detalhou como Temer e aliados negociavam para manter Eduardo Cunha longe de um acordo de delação premiada com a Lava Jato e disse Geddel cuidava disso pessoalmente. Com a queda de Geddel do Governo, em novembro do ano passado, Rodrigo Rocha Loures passou a exercer este papel de mediador. Loures foi preso no início de junho, mas o Supremo mandou soltá-lo na última sexta-feira.

Geddel Vieira Lima foi o sexto ministro a pedir para deixar o cargo desde que Temer assumiu a presidência interinamente em maio do ano passado. Apresentou sua carta de renúncia em meio ao um escândalo, e apenas uma semana depois que diplomata Marcelo Calero pediu demissão do cargo de ministro da Cultura.

Calero acusou Geddel de pressão indevida para liberar uma obra em Salvador, contrariando uma decisão do Instituto do do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão que está submetido à pasta da Cultura. Em sua carta de demissão, Geddel disse que "avolumaram-se as críticas" sobre ele. "Em Salvador, vejo o sofrimento dos meus familiares. Quem me conhece sabe ser esse o limite da dor que suporto. É hora de sair".

Em junho deste ano, a Polícia Federal enviou ao presidente Michel Temer um questionário com 82 perguntas. Dessas, dez envolviam o nome de Geddel. Dentre as questões, foi perguntado ao presidente se ele sabia que o ex-ministro mantinha encontros ou contatos com o empresário Joesley Batista.

Os investigadores também questionaram se Temer sabe "de algum fato objetivo que envolva o ex-ministro Geddel Vieira Lima e que possa ser mencionado em acordo de colaboração premiada que eventualmente venha a ser firmado". Perguntaram também se "Geddel Vieira Lima efetivamente mantinha relação próxima a Eduardo Cunha".

Operação Cui Bono

Geddel Vieira Lima é um dos investigados na Operação Cui Bono, que foi deflagrada em janeiro deste ano para investigar irregularidades cometidas pela vice-presidência da Caixa Econômica Federal, durante o período em que foi comandada pelo político baiano. A investigação teve origem na análise de conversas registradas em um aparelho de telefone celular apreendido na casa do então deputado Eduardo Cunha.

O teor das mensagens indicam que Cunha e Geddel atuavam para garantir a liberação de recursos por vários setores da Caixa a empresas que, após o recebimento, pagavam vantagens indevidas aos dois e a outros integrantes do esquema, entre eles Fábio Cleto. Cleto, que ocupou por indicação de Eduardo Cunha a vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias, foi quem forneceu as primeiras informações aos investigadores. Em meados do ano passado, ele fechou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-geral da República.

Em conversas de 2012, por exemplo, os envolvidos revelam detalhes de como agiram para viabilizar a liberação de recursos para sete empresas e um partido político. Entre os beneficiados do esquema aparecem companhias controladas pela holding J&F, dos irmãos Batista. Os investigadores constataram "intensa e efetiva participação de Geddel Vieira Lima no esquema criminoso". Além da prisão preventiva, a Justiça acatou os pedidos de quebra de sigilos fiscal, postal, bancário e telemático do ex-ministro.

Com a prisão de Geddel, passam a ser cinco os presos preventivos no âmbito das investigações da Operação Cui Bono e da Operação Sépsis, um braço da Lava Jato baseada nas delações de Fábio Cleto e do ex-diretor da Hypermarcas, Nelson Mello. Estão detidos os ex-presidentes da Câmara Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves (também ex-ministro de Temer), o doleiro Lúcio Funaro e André Luiz de Souza, apontados como integrantes da organização criminosa que teria agido dentro da Caixa Econômica Federal.


El País
Pedro Ladeira - 05.out.2016 -/Folhapress



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