domingo, 9 de novembro de 2014

Nordestinos usam humor para vencer ataques e lembram que a seca não é mais um caso regional

Internautas nordestinos brincaram, mas também atacaram

Nas eleições, internautas colocaram a hashtag #SouDoNordesteMesmoEComOrgulho no topo dos assuntos mais comentados; mestre em estudos sobre preconceito opina e orienta a respeito das polêmicas.

A internet foi utilizada erroneamente para ataques e críticas preconceituosas durante o segundo turno das eleições, quando o Nordeste foi responsabilizado pelavitória de Dilma Rousseff (PT), eleita com 51,6% dos votos válidos. Dessa vez, os nordestinos não se deixaram levar pelas ameaças e se defenderam com humor e também com alguns ataques.

No Twitter os internautas colocaram a hashtag #SouDoNordesteMesmoEComOrgulho no topo dos assuntos mais comentados da rede social por mais de 24 horas contínuas, logo após os resultados nas urnas, apenas com comentários e piadas que funcionaram como respostas aos ataques disseminados pelos internautas preconceituosos.

O que ficou mais evidente foi uma possível rixa entre os que moram em São Paulo, estado onde o PSDB obteve maioria nas eleições e é governado pelos tucanos, e o Nordeste, onde Dilma Rousseff teve ampla maioria. Dessa vez, os nordestinos tocaram num ponto fraco enfrentado pelos paulistas que é a escassez de água. Se historicamente o Nordeste ficou conhecido por enfrentar seca, em 2014 o Brasil assiste à maior cidade do país em situação praticamente idêntica às 170 cidades da Paraíba, por exemplo, onde a água é escassa.

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“Acordei e tomei um banho gostoso. Já vocês aí em São Paulo não sei se fez o mesmo” [sic], diz uma usuária. Outra escreveu: “Temos o melhor: amor, água, alegria, água, felicidade, água, cultura rica, água, praias, água, a melhor culinária”, esquecendo que a água ainda não chega para a população de mil cidades de todos os estados da região que estão em situação de emergência reconhecida pelo Ministério da Integração Nacional.
 Nordestinos usaram humor, mas também atacaram
FotoNordestinos usaram humor, mas também atacaram
CréditosReprodução

Sobre as polêmicas registradas nas redes sociais depois das eleições, a professora da Universidade Federal da Paraíba, Ana Raquel Rosas, faz uma contextualização histórica para ajudar a entender porque os nordestinos têm sido alvos de constantes ataques, fazendo uma comparação com a discriminação contra negros.

“Acredito que a primeira coisa que temos que definir é o que estamos chamando de 'preconceito'. Ele é um fenômeno que tem estado presente durante toda a história da humanidade, embora a sua característica racial seja relativamente recente; apenas entre as décadas de 1920 e 1930 que o preconceito racial passou a ser visto como um problema social. Isso ocorreu principalmente devido ao início do movimento negro nos Estados Unidos”.

Professora

Rosas afirma que as pessoas têm medo de atacar negros, por exemplo, porque há leis e punições evidentes e mais severas, o que não ocorre para 'proteger' os nordestinos.

“Por que as expressões preconceituosas contra os nordestinos são tão flagrantes e virulentas e isso não mais acontece, por exemplo, contra a população negra? Embora possa parecer simplista, mas temos leis severas contra o racismo e, além disso, existe uma norma social poderosa que não permite mais expressões flagrantes do preconceito contra os negros, embora isso não queira dizer que esse fenômeno tenha desaparecido. No entanto, quando falamos em 'nordestinos' é como se essa norma social ainda não tivesse valendo para proteger esse grupo. Em outras palavras, ainda seria 'socialmente permitido' expressões flagrantes do preconceito regional. Essa é apenas uma hipótese, mas que parece ser verdadeira, infelizmente".

Ataques

Sobre as reações apresentadas por nordestinos nas redes sociais, que também decidiram mencionar a seca para atacar paulistas, por exemplo, ela destaca: “Bom, uma coisa é inegável: não perdemos a piada e conseguimos, de certa forma, mostrar o ridículo das expressões do preconceito flagrante contra o Nordeste”.

Além disso, a mestre reforça que o problema da falta de água deixou de ser localizado e passou a ser mais difuso, não importando cor, raça ou localização geográfica, não sendo o Nordeste a única região do país a sofrer com essa situação.

“[Isso foi] uma tentativa de mostrar que o problema da seca não é apenas do Nordeste. Da mesma forma, a pobreza. É claro que a pobreza e a seca são mais agudas aqui, mas elas existem também no Sul e no Sudeste. No entanto, o aspecto que nos interessa entender é por quê, no imaginário nacional, esses fenômenos existiriam apenas no Nordeste. É claro que temos que ter em mente que essa é uma imagem que vem sendo construída através dos séculos da formação da nação brasileira e, de certa forma, vem sendo reconstruída pelos meios de comunicação, pela literatura, pelo cinema etc”.

Utilização errada da internet


Ana Torres faz orientações sobre o uso da internet, classificando-a como perigosa “com o potencial de atingir um número exponencial de pessoas rapidamente e com uma vasta quantidade de informações e, mais importante, com uma dificuldade enorme de se verificar a veracidade dessas informações” e diz que não há receita pronta e fácil para ser seguida pelos nordestinos em situações como as que foram vistas com a reeleição de Dilma Rousseff.

“Duas coisas me chamam atenção: exigir, enquanto sociedade, que o Poder Judiciário puna com rigor esse tipo de coisa, afinal nossos direitos, enquanto cidadãos brasileiros estão sendo ameaçados e, segundo, que a imprensa nacional em geral e do Nordeste em particular tenha mais cuidado para não fornecer os argumentos para discursos preconceituosos que podem fomentar conflitos poderosos entre as diversas regiões do Brasil”, finaliza.







Portal Correio
Foto reprodução Portal Correio

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